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Cresce número de casos de violência contra professores

Marcia Jordan

01/09/2014 às 11:05

Cresce número de casos de violência contra professores

O número de professores vítimas de violência cometidas por alunos dentro das escolas tem crescido de maneira alarmante na capital mato-grossense. Segundo dados da Delegacia Especializada do Adolescente (DEA), só no período de janeiro a junho deste ano foram registradas 502 ocorrências, envolvendo 32 tipos de crimes diferentes dentro das instituições de ensino de Cuiabá.

Uma pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), põe o Brasil no topo do ranking de violência em escolas. De acordo com o levantamento, 12,5% dos professores ouvidos no Brasil disseram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana. O índice é o mais alto entre os 34 países pesquisados, uma vez que a média entre eles é de 3,4%.

Para o titular da DEA, delegado Paulo Alberto Araújo, são vários os motivos que geram os conflitos entre professores e alunos dentro das salas de aula. Porém, para ele, o pivô principal é a falta de princípios e valores que deveriam começar dentro de casa. “A família deve trabalhar em conjunto com a escola, para que o aluno desenvolva o seu melhor em ambos os recintos”.

Ele ressalta que por mais que não pareça, o menor é a principal vítima nesse tipo de caso. “Quando a criança não recebe o que lhe é de direito por parte dos pais, como a atenção devida, sentirá essa necessidade. E os problemas enfrentados em casa irão eclodir dentro da sala de aula”.

Se por um lado existem dilemas a serem solucionados no âmbito familiar, o delegado lembra que, por outro, a escola também tem sua responsabilidade no que tange a humanização dos alunos. “As crianças evoluíram, mas a escola não. Muitos professores ainda se limitam ao ensino arcaico e ficaram parados no tempo, o que dificulta um melhor relacionamento com os alunos”.

Nesse quesito a professora Luzia Abich, gerente da Coordenadoria de Programas e Projetos, da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), concorda com o delegado. Segundo ela, a falta de interesse por aquilo que se ensina na escola resulta em indisciplina. “Sem interesse pelo que é oferecido em sala de aula, o aluno se rebela, fica ocioso, e sobra tempo para criar conflitos tanto entre professores, como com os colegas de classe”.

Recentemente, a Seduc realizou uma pesquisa interna, nos chamados “livro preto”, para levantamento de dados que apontem a natureza do comportamento dos alunos, bem como o quantitativo de incidências, os encaminhamentos dados pela escola ou a ausência deles. No primeiro semestre deste ano, a amostra elencou 96 ocorrências, entre ameaças, conflitos e agressões verbais nas escolas estudadas.

Abich explica que esses tipos de ocorrências acontecem por falta de uma escola aberta ao diálogo e fortificada quanto à sistematização curricular e estrutural das instituições de ensino. “Os professores não estão preparados para lidar com a criança de hoje. Falta um currículo e uma estrutura melhor, que ampare esses alunos, de maneira a não gerar conflitos, e sim solução”.

Ela fala ainda que dois quesitos fazem toda a diferença quando o assunto é relacionamento professor e aluno. “Quando o educador entra em sala de aula, a criança analisa se ele tem domínio sobre o que irá ministrar e se ele tem autoridade. E se ele percebe que o professor não tem, a situação perde literalmente o controle”.

Foi nessa situação que a professora L.M.L, 68, se encontrou pouco antes de se aposentar. Ela relata que um aluno de 14 anos, da escola estadual em que ela dava aula, sem motivo algum começou a persegui-la dentro da unidade. E com o passar do tempo, chegou a ir na porta de sua casa. “Ele disse em alto e bom tom, que não tinha ‘ido’ com a minha cara, porque eu era velha e negra. Cheguei a abrir processo administrativo contra ele. Era só mais um dos vários que ele já respondia”.

A professora tentou transferência para uma outra escola, mas não conseguiu pelo fato de ser o último ano em que lecionava. Até que chegou um dia em que o conflito foi além da sala de aula. “Quando cheguei em casa, as janelas estavam todas quebradas e o muro pichado com a frase ‘Lugar de professor é no inferno’. Nunca vou me esquecer daquele dia”.

A educadora registrou um boletim de ocorrência contra o aluno e conseguiu uma licença para ficar longe das salas de aula até o final do inquérito. “Infelizmente o menino não foi punido, por ser menor de idade. E ainda chegou a me enviar um e-mail ironizando a minha situação”.

O caso aconteceu em 2011 e até hoje a professora é acompanhada por uma psicóloga. “Após mais de 25 anos lecionando, criei um trauma da sala de aula”.

Coordenador da Escola Estadual Francisco Alexandre Ferreira Mendes, Danilo Benigno de Souza confirma que apesar dos vários programas de incentivo à educação e contra a violência serem desenvolvidos na unidade, conflitos entre professores e alunos tem crescido nos últimos anos. “Desde que estou aqui, nunca presenciei agressão física. Porém, é comum casos de bullying, agressões morais e verbais e, infelizmente, o índice só tem aumentado”.

Souza conta que existem alunos que tentam burlar as normas internas da escola, criar um sistema em que eles são a autoridade. “No primeiro dia de aula a professora entrou em sala e o aluno já disse que era bom ela andar nas regras da turma, se quisesse ter uma boa convivência com eles. E outro chegou a perguntar se ela não tinha medo de sumir”.

Para o coordenador, isso acontece por três motivos. “Violência generalizada, estrutura familiar fragilizada e falta de aproveitamento de tempo”.

Atualmente a escola oferece aos alunos projetos de jiu jitsu, futsal, basquete e fanfarra. “Nossa intenção é manter as crianças ocupadas com atividades construtivas. Afinal, tempo livre com a rua disposta a receber os adolescente é um perigo”.

Também no intuito de amenizar esses tipos de embates, a Seduc em parceria com a Polícia Militar, Conselhos Tutelares e demais órgãos de defesa da criança desenvolve o programa Paz na Escola, que tem como objetivo debater práticas que orientem e fortaleçam o atendimento de conflitos nas unidades escolares.

 

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