Mato Grosso, Quarta-Feira, 23 de Junho de 2021
Logo Só Informação
Informe Publicitário
LAVOURA

Lavoura vira opção na hora de pagar contas de reforma de pastagem em MT

Marcia Jordan

17/05/2016 às 17:03

Lavoura vira opção na hora de pagar contas de reforma de pastagem em MT

Imensas áreas de pastagem e um rebanho bovino superior a 2,8 milhões de animais evidenciam a vocação da região Noroeste mato-grossense para a pecuária. Sobre esta faixa são criados quase 10% do rebanho bovino total do estado, que chega a 29,1 milhões de cabeças, segundo o Instituto de Defesa Agropecuária (Indea-MT).
milho
“É uma região propícia para a pecuária e ainda com possibilidade de intensificação com outras atividades. Tem potencial, por exemplo, para se criar quatro, cinco unidades de gado sobre cada hectare”, afirma Nilton Mesquita, gerente de Relações Institucionais da Acrimat (Associação dos Criadores de Mato Grosso).

O que explica as vantagens desta região para a criação de gado são fatores como sua localização geográfica. A oferta de água é abundante graças à hidrografia (rios, córregos e igarapés); um clima tropical; temperatura média de 24 graus, um regime bem distribuído de chuvas. Em alguns municípios, elas chegam a 2.250 milímetros ao ano.

Mas as terras antes quase que exclusivas para o gado passaram a dividir espaço com a agricultura. Mais uma região que se rendeu à chamada integração lavoura e pecuária, um conceito de produção que está revolucionando o modelo produtivo no campo.

Tudo ainda é novidade, mas quem se lançou neste ‘projeto’ não esconde o entusiasmo. “Estamos em processo de aprendizagem, mas já satisfeitos com os resultados”, afirma Daniel Eijsink, gerente geral das Fazendas São Marcelo em Mato Grosso.

A integração agropastoril chegou à propriedade do Grupo JD, localizada em Juruena, neste ano. Dos 25 mil hectares destinados à pecuária de cria, 400 hectares são ocupados pelo o milho.

“Nosso projeto é fazer o plantio de milho durante três anos para ele pagar a reforma do pasto e termos uma área mais preparada [para o gado] “, afirma Daniel Eijsink. Como a semeadura foi realizada em fevereiro, a expectativa é dar início à colheita entre maio e junho.

O investimento inicial para deslanchar o projeto demandou investimentos de R$ 1,5 milhão, segundo cálculos do Grupo. Nesta conta estão relacionadas despesas como o preparo da terra para receber a cultura, além do pacote tecnológico para plantar (insumos, adubos e sementes de milho). O custo de produção/hectare, conforme Eijsink, foi de R$ 3,9 mil.

Na ponta do lápis, estes quase R$ 4 mil/hectare necessários para introduzir a lavoura em terra da pecuária significam gastar 53,5% a mais, se comparado ao custo de produção em fazendas que só praticam agricultura. Pelas contas do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, cada hectare de milho semeado nesta safra 2015/2016 custou R$ 2,5 mil/hectare.

milho2Na planilha de projeções da Fazenda São Marcelo, a renda obtida com a venda do cereal não será suficiente para cobrir as despesas com a lavoura neste primeiro ano de implantação da iLP. A conta considera um valor de venda da saca do cereal a R$ 33 e a estimativa de colher 100 sacas por hectare.

“O primeiro ano tem uma expectativa de gerar mil reais por hectare de prejuízo. Por isso plantaremos três anos para que a colheita pague o residual [no futuro]”, pontuou Eijsink. Serão 2,3 anos para que todo investimento se pague e comece a dar lucro.

Cenário que não retira o otimismo quanto ao casamento entre lavoura e pecuária. Daniel Eijsink não esconde a meta arrojada: até o fim de 2016 ampliar de 400 para mil hectares a área agricultável na Fazenda. Em um curto espaço de tempo, elevá-la para 2 mil hectares.

Por que é vantagem?
Neste modelo integrado, tanto o gado quanto a cultura agrícola se beneficiam. Os animais contam com uma maior oferta de alimento e rica em valor nutricional. Fator que estimula o ganho de peso – até 8 arrobas por animal –, bem como a ocupação da área de pastagem, que cresce de 1,2 gado por hectare para 7.
“Espera-se um rendimento melhor do gado que estará nestas áreas, pois se tem uma pastagem de melhor qualidade”, afirma Leone Furlanetto, gerente técnico das Fazendas São Marcelo.

Depois que o gado é retirado da área, a biomassa da forrageira e o cereal protege o solo e conserva seus nutrientes e a umidade, até que a próxima safra de milho seja plantada.

Descobertas
Em outras regiões de Mato Grosso, este modelo de integração já caiu no gosto dos pecuaristas. “Nosso negócio é o boi. Mas a quantidade de pecuaristas que está entrando com lavoura para pagar a conta da reforma é grande”, diz Carlos Guimarães, de Nova Xavantina. Há oito anos ele decidiu investir no consórcio soja-milho e boi. Dos 3.850 mil hectares da Fazenda Invernada, 900 são ocupados pela agricultura todos os anos.

Há seis anos, também em Nova Xavantina, o empresário Elyson Ricci deu início ao cultivo de grãos. E não se arrepende da decisão.

“Uma área sem agricultura teria, em média, uma unidade boi por hectare. Onde há a integração são, em média, 3 unidades por hectare. Num período de curto prazo, que é quando há entressafra (sai a lavoura e entra o gado), chegamos a ter de 5 a 6 unidades animais por hectare”, afirma.

Um estudo publicado em 2013 pela então doutoranda Juliana Gil, da Universidade de Hohenheim, em parceria com a Embrapa Agrossilvipastoril e com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), mostrou que Mato Grosso conta com cerca de 500 mil hectares com algum sistema integrado de produção.

A maior área, isto é, 89% (445 mil hectares), é ocupada pela integração lavoura e pecuária. Há ainda presença da integração pecuária floresta (iPF) em 5% da área, 5% com integração lavoura, pecuária e floresta (iLPF) e 1% em integração lavoura e floresta (iLF).

 

 

Fonte Leandro nascimento